As passagens duram pouco tempo, muito pouco, ainda assim é o suficiente para que algo se instale. Se eu quiser ocupar o lugar do outro, que estratégia posso tomar, que truques posso utilizar? É aquele lugar, aquele lugar onde o outro está e não outro. É AQUELE QUE QUERO, aquele sítio onde o outro está é para onde quero ir e onde quero ficar. É esse, o lugar do outro que quero ocupar. O outro quer tanto como eu ocupar o lugar em que estou. Será este sítio tão valioso como aquele para onde vou?
Isso pouco importa para a troca, este por aquele. Aquilo que está aqui de facto em causa é o negociar da troca, o preciso momento da passagem. Não tenho que convencer o outro porque o outro parece querer fazê-lo tanto quanto eu. Mas é preciso que se valorize a troca, que se sublinhe que eu vou daqui para ali, encontrando-me e relacionando-me num instante em que me cruzo com o outro. Não vou de um modo qualquer. Vou, mas vou em trabalho. Tenho um affaire marcado.
O momento do cruzamento denuncia o que penso do outro, o que quero do outro, de que condimentos é feita a minha relação com ele. O modo como essa relação pode ser entendida sugere uma narrativa. É quase um momento fotográfico, é como se aquele momento particular valesse enquanto síntese de uma história, um momento retirado de um continuum. Tem uma consistência que vem do passado (do sítio de onde venho) que se denuncia no presente (no momento do cruzamento com o outro) e se prolonga para um futuro. O que se passou antes? O que se terá passado depois? Será que se voltarão a encontrar? O momento inicia-se e acaba ali, naquele ponto concreto em que o cruzamento não permite a fuga do encontro. E quando algum deles olha para trás depois de ter abandonado o seu par ou se continuam a olhá-lo enquanto ocupam o novo lugar, esse momento acaba por atrever-se a prolongar a existência dessa breve relação, a dilatar e a sublinhar o tempo de presença desse fragmento de narrativa.
Terminado o momento e conseguido o objectivo de chegar até ali, ao lugar onde o outro estava, logo se começa a desenhar uma nova tensão, uma nova energia. O novo lugar adquirido não lhe chega, é sempre insuficiente, e deixa sempre insatisfeito. Continua a ser o lugar do outro que me interessa, ou afinal isto serve de desculpa para o meu real interesse: estabelecer uma qualquer relação com o outro, uma troca de olhar, uma carícia, um rosto destinatário da minha fúria de estalos, um gesto mais agressivo, um olhar que não compreendo, que quero experimentar, e que quero que o outro não compreenda também. É a necessidade, a ambição de pessoas, desse encontro ainda que fugaz, desse affaire que marca a dinâmica do exercício.
Tenho de investir num ne-g-otium, numa negação do ócio. Tenho de recusar a passividade para que algo aconteça, para alterar a minha situação e a minha posição dentro de um todo. Estamos cá para encontrá-lo e depois perdê-lo, afectamos e somos afectados porque de qualquer modo somos levados a nos relacionarmos com o outro. Criação e logo destruição de vínculos afectivos, expressados num encontro físico de um corpo em movimento que, propositadamente ou não, acaba por falar por nós. A linguagem do corpo é a linguagem dos affaires: a diversidade e particularidade de cada corpo, onde habita um ser, que é único, são o que motiva o encontro com o outro. A embalagem acaba sempre por contar, não é assim? A semiologia do corpo?
É a morte da coisa quando já se conhece a linguagem do outro…quando já não há curiosidade para matar a propósito do modo como o outro utiliza o seu corpo. E se daí nada mais cresce, tudo se resume ao encontro, ao momentinho que nunca deixou de ser: um affaire. Mas vejamos o lado positivo. Acabou aquela relação, foi bom (ou não) enquanto durou aquele encontro, e o melhor de tudo, é que fiquei com o lugar do outro. E posso virar-me noutras direcções, há sempre um par a querer trocar de lugar comigo, a querer saber de que modo fala o meu corpo com o dele. Quando “já ninguém se quer encontrar” (André em pleno exercício 17/03/2009) então deixa de haver realmente troca, e o que se passa já perdeu o interesse… Passam a ser corpos sozinhos, desmotivados, em movimento pelo espaço. “Começam a entrar na palhacice e no n’importe quoi” (Camacho a propósito do exercício 17/03/2009) Mas quando acontece……..!
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