
O vislumbre do perpétuo que nos é concedido pelos espelhos que frente a frente se reflectem ad infinitum, que vai de uma cor a um gesto, e de um grito a um movimento, conduz-nos sem cessar através de caminhos abruptos e duros para o espírito.
Vemo-nos reflectidos em reflexos que não queremos ver, e quando nos pedem para repetir o que vimos no nosso espelho, mais não conseguimos do que uma imagem invertida, já não genuina do mesmo modo que a vimos pela primeira vez acontecer, nesse espelho.
Essa tentativa da reprodução da imagem, que se reflectiu no espelho interior de quem viu, mergulha-nos num estado de incerteza e angústia inefável que, dizem, é coisa própria da poesia.
Usar o nosso reflexo é um risco - é aceitar que não somos únicos, mas antes desdobráveis, multiplicáveis e reproduzíveis em mundo planos de reflexos. Podemos não nos reconhecer na imagem reflectida. Mas é nesse mundo bidimensional do espelho que nos devemos procurar.
Estamos a lá chegar.Do outro lado dos espelhos.
1 comentário:
“Retrato”
Eu não tinha este rosto de hoje,
assim calmo, assim triste, assim magro,
nem estes olhos tão vazios,
nem o lábio amargo.
Eu não tinha estas mãos sem força,
tão paradas e frias e mortas;
eu não tinha este coração
que nem se mostra.
Eu não dei por esta mudança,
tão simples, tão certa, tão fácil:
- Em que espelho ficou perdida
a minha face?
Cecília Meireles, 1995
um beijo e um sorriso (escondido do espelho) Eurídice Rocha
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