domingo, 3 de maio de 2009

OS ESPELHOS E AS ANGÚSTIAS. As minhas.


O vislumbre do perpétuo que nos é concedido pelos espelhos que frente a frente se reflectem ad infinitum, que vai de uma cor a um gesto, e de um grito a um movimento, conduz-nos sem cessar através de caminhos abruptos e duros para o espírito.


Vemo-nos reflectidos em reflexos que não queremos ver, e quando nos pedem para repetir o que vimos no nosso espelho, mais não conseguimos do que uma imagem invertida, já não genuina do mesmo modo que a vimos pela primeira vez acontecer, nesse espelho.


Essa tentativa da reprodução da imagem, que se reflectiu no espelho interior de quem viu, mergulha-nos num estado de incerteza e angústia inefável que, dizem, é coisa própria da poesia.


Usar o nosso reflexo é um risco - é aceitar que não somos únicos, mas antes desdobráveis, multiplicáveis e reproduzíveis em mundo planos de reflexos. Podemos não nos reconhecer na imagem reflectida. Mas é nesse mundo bidimensional do espelho que nos devemos procurar.


Estamos a lá chegar.Do outro lado dos espelhos.

1 comentário:

Eurídice Rocha disse...

“Retrato”

Eu não tinha este rosto de hoje,
assim calmo, assim triste, assim magro,
nem estes olhos tão vazios,
nem o lábio amargo.

Eu não tinha estas mãos sem força,
tão paradas e frias e mortas;
eu não tinha este coração
que nem se mostra.

Eu não dei por esta mudança,
tão simples, tão certa, tão fácil:
- Em que espelho ficou perdida
a minha face?


Cecília Meireles, 1995

um beijo e um sorriso (escondido do espelho) Eurídice Rocha