Gosto de Teatro porque me interesso pelo actor. Gosto do encontro diário com os actores, desse contacto, desse sentimento mútuo de compreensão (e por vezes de incompreensão também) entre mim e eles, e a impressão que resulta do facto de, por vezes, sentir que me abro a outros seres, tentando compreendê-los. Em resumo, gosto da possibilidade de ultrapassar uma solidão. A tentativa de nos compreendermos a nós próprios através do comportamento de outro, encontrando-nos nele, é altamente sedutora.
Se em estreita colaboração chegarmos a um ponto em que o actor, liberto das suas resistências quotidianas, se revela profundamente a si mesmo por uma reacção, eu fico também, pessoalmente, enriquecida. Nessa reacção revela-se uma espécie de experiência humana, algo de muito especial, que me diz algo que ainda não sei o que é, Abre-se uma nova perspectiva nos limites do colectivo, na base comum das nossas convicções.
A realização do actor constitui uma espécie de transcendência do viver quotidiano, de um conflito íntimo entre o corpo e a alma, a inteligência e o sentimento, os prazeres fisiológicos e outras aspirações. Por momentos o actor fica livre do semi-comprometimento e do conflito que nos caracteriza a vida quotidiana. É isto que lhe invejo, esse mesmo descomprometimento que não consigo alcançar senão através dessa raça, que tanto aprecio.
Parecerá exagerado: louvo-lhes a existência e os seus virtuosismos.
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